
As CorintiANAS em “A Santinha do Capim-Gordura”
QUALQUER semelhança entre esta obra e a realidade é mera coincidência. Eis uma obra de ficção.
Primeiramente gostaria de explicar aos leitores desavisados que não existem bairros nobres em Corinto. No máximo uma divisão dos que moram antes da linha (do trem) e dos que moram depois. Mas é no centro da cidade onde vivem os mais afortunados, os que podemos chamar de “a nobreza corintiana” (e não estou falando do time de futebol). E como a protagonista dessa história faz parte dessa nobreza, é no centro que essa história se passa.
Ahhh, manhã de domingo! Ceu azul, sinos da igreja convidando para a missa das crianças, cachorros latindo e Julieta cantando para as meninas que passam na calçada da rua do Footing. Tudo conspirava para um domingo tranquilo se não fosse a pequena fila que se formava na porta da copiadora All Bernard’s que excepcionalmente estava aberta, mesmo se tratando de um domingo.
M: Dolores, Dolooores acorda fia!
D: Ai Marisa me deixa, eu tô de bode! Além do mais é domigo e são [pausa para procurar o relógio debaixo do travesseiro] 8 da manhã.
M: Então fica aí sua velha, mas eu estou indo alí na All Bernad’s que acabou de sair outra edição dA Trombeta do Agreste. Tem fila já até!
D: Cê tá falando daquele jornalzinho anônimo que mês passado colocou a gente na lista das mais mal comidas da cidade?
M: É, ele mesmo! Parecem que deixaram uma cópia hoje de madrugada debaixo da porta da copiadora, e como nessa cidade as fofoca se espalham feito vírus num esperaram nem até amanhã pra começarem a distribuir as cópias.

A Trombeta do Agreste era a maior sensação em Corinto desde O Briguela. Mal diagramado e cheio de passagens que fariam o professor Pasquale chorar óleo de fígado de bacalhau mas recheado de fofocas quentíssimas e de listinhas estilo Top 10 tinha tudo que a população da cidade gostava. Já tinha elegido as mais piranhas, as mais gostosas, os mais viados, os mais malas dentre outros. Tinha até gente que fazia campanha para aparecer no jornalzinho. Já estava na quarta edicão e até hoje ninguém sabia que escrevia. Mas era só aparecer debaixo da porta de alguma copiadora pra virar sucesso instantâneo.
Quando a Trombeta chegou à casa dos Miranda Duarte foi um rebuliço só. Seu Jurandir estava uma pilha de nervos. Marisdete não conseguia parar de chorar e a pobre Ana Duquesa ficava parada alí observando a histeria dos dois sem conseguir pronunciar uma palavra.
J: Você perdeu o juízo garota? Grávida aos 17 anos?
J: E agora como é que fica nossa reputação? Logo agora que estamos ganhando a simpatia da sociedade e que consegui ser vereador? O que o povo vai pensar agora? Que eu tenho uma filha PUTA! E como vou me candidatar pra prefeito no ano que vem?
J: Fala alguma coisa Ana! Fala quem é o pai que eu vou atrás do desgraçado e vou fazer ele casar com você logo antes que essa barriga comece a crescer. Anda, fala logo!
Ana Duquesa que mal conseguia abrir a boca sussurrou por entre os lábios:
AD: E-e-e-u n-n-ão sei…
Ao ouvir aquelas palavras seu Jurandir voou pra cima da menina que teria levado uma bela surra se não fosse pela intervencão de Marisdete que impediu o pai.
J: Tá ouvindo isso Marideste? Ela não sabe quem é o pai! É uma vagabunda! Bem capaz de ter um bebê porco igual a Duquesa da história de onde você tirou esse nome ridículo
J: Isso é culpa sua que se juntou àquelas mulheres vadias do Corinto Clube. Deu o exemplo pra sua filha agora tá aí. Viu o que aconteceu.
Nesse momento Marisdete não se conteve e interrompeu a verborragia do marido.
M: Ah é culpa minha? E você que se meteu nessa carreira política, vive envolvido em escândalo de corrupção. E o seu caso com a primeira dama? Isso é exemplo pra sua filha?
J: Eu não tenho um caso com a primeira dama! Nós simulamos para chantagear o prefeito a não se candidatar nas próximas eleições e você sabe muito bem disso! E cale essa boca que se todo mundo souber que o prefeito é corno não vou ter minha carta na manga e ele vai ser candidato de qualquer maneira. Estava tudo dando tão certo. Era minha chance de ser eleito no ano que vem. Agora está tudo perdido. Tudo perdido!
Nesse momento, Ana Duquesa correu para o quarto e ficou trancada o resto do dia. A menina não conseguia imaginar como aquilo tinha acontecido ou quem poderia ter publicado. Não ficou surpresa quando A Trombeta divulgou que sua melhor amiga Carmen de La Clinton estava saindo com um homem casado, mas agora com ela!? Logo ela que sempre foi tão certinha. Até tinha entrado pro EAC três meses antes. A menina estava arrasada.
Em pouco tempo a cidade toda já tinha pegado uma cópia e já sabia do bafo. Toda hora alguém gritava algo provocativo na porta da casa dos Miranda Duarte, ou então tacavam alguma coisa pelo muro. Seu Jurandir passou os próximos dias pensando numa forma de salvar a reputação da família e sua candidatura nas próximas eleições até que pensou num plano.
Como Ana Duquesa não tinha a menor idéia de quem poderia ser o pai resolveu trazer o filho de seu irmão que morava em Três Maria. Ninguém o conhecia em Corinto. Faria um discurso, apresentaria o rapaz à população, diria que ele e Ana estavam apaixonados e que iriam se casar. Depois quando o bebê nascesse manteriam o casamento de fachada (seu Jurandir já tinha até conseguido comprar o padre) até as eleições ou até que conseguisse pensar numa solução melhor. Com sorte o povo perdoariam um deslize de adolescentes o elegeriam prefeito assim mesmo.
E assim foi feito. Jurandir fez um discurso realmente comovente. Comparou sua família a tantas famílias nesse Brasil. Abraçou e Beijou Marisdete no palanque. Abraçou a filha e o suposto genro. E perguntou para o público se aquilo não poderia ter acontecido com qualquer um deles. Foi aplaudido fervorosamente. E saiu do palanque com a certeza que nem tudo estava perdido e que talvez aquilo tudo tenha até sido bom para passar uma imagem de mais humanidade para a população de Corinto que definitivamente era falsa, pois ele não falava com Ana desde o ocorrido.
Dois meses se passaram, saiu a quinta edição da Trombeta do Agreste falando que a mulher do padeiro tinha um caso lésbico com a pastora da igreja evangélica e o povo novamente ficou em polvorosa e não tinham mais tempo para condenar a gravidez de Ana Duquesa. Mas a barriga da menina não tinha crescido nada. Seu Jurandir e Marisdete foram levá-la a Belo Horizonte para fazer exame e conferir se estava tudo bem.
Após examinar Ana Duquesa, o médico virou para os Miranda Duarte e falou:
Meus senhores, essa garota não está grávida e nem poderia estar porque ainda é virgem! Agora me dêem licença que preciso atender à próxima paciente.
Seu Jurandir em choque começou a falar:
J: O que? Como não está grávida? E o jornal? A trombeta? E o casamento, a comoção e a emoção do povo? A família! E a minha eleição?
J: Ah, mas isso não vai ficar assim! Vamos embora Marisdete. Temos 7 meses para conseguir um filho para essa garota. Porque a voz do povo é a voz de Deus!

Comentários em: "As CorintiANAS em “A Nova Grávida do Centro”" (3)
HAHAHAHAHAHAHAHAH!
Genial!
Quem nunca sofreu bullying com estas listas? Eu já tive em várias categorias…
Ficou ótimo, Math! Ahazou!
Pessoal, estou acompanhando a série e morrendo de rir.
Tão Corinto… rs
E as listas? Eu não me lembraria mais destas pérolas da cidade!
Estou adorando!
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